25.03.2026

A Individualidade é uma Ilusão

por João Pacca

MAPA — Mostra de Imagem em Movimento é um programa curatorial que, por meio de videoinstalações em locais públicos e com o objetivo de fornecer às ruas uma mostra de arte contemporânea, pensa território, memória, coletividade e continuidade. Atualmente, a realização do programa responde ao recurso público para preservação da memória ferroviária e, em especial, à Estrada de Ferro Carajás, um instrumento condutor de vidas que une São Luís (MA) a Parauapebas (PA), ligando os estados continentais do Maranhão e do Pará.

A missão, a nós conferida, entende representar, defender e promover este trilho de fluxos culturais que, como aponta o artista maranhense Ramusyo Brasil, “não só reorganiza o espaço geográfico como contribui para a construção de um novo tipo de olhar.”

Nossa aproximação com a ferrovia começa por um aspecto celebrativo, uma vez que a ferrovia completa 40 anos em 2026, mas se aprofunda em pensar uma estratégia de reconhecimento de si própria e também de importância aos mundos que a formam. Por isso, nossa estratégia curatorial parte de uma indagação poética: como a ferrovia poderia produzir seu próprio autorretrato? Uma pergunta cuja resposta se constrói pela produção de artistas da própria região, que, por meio da arte contemporânea, em sua vocação maximalista e acolhedora de contradições, podem traduzir a coreografia complexa entre lembrança e esquecimento.

O trem, em sua alta velocidade, especializa o tempo e o espaço de maneira cinemática, onde a ilusão da individualidade se degrada na experiência compartilhada da viagem. Somos todos passageiros de um mesmo caminho; gotas numa chuva contínua, inventando sentidos percebidos justamente pelos contrastes de presenças e ausências que pontuam nossa paisagem.

A ferrovia é um campo de encontro entre sujeitos e objetos. Um veículo para observação sobre ecossistemas e meios industriais que permite pensar, como faz o artista Dinho Araújo, um sistema mais amplo integrado ao humano. Nas misturas de sons, uma alvorada de imagens sonoras surge, como as produzidas pelo musicista Leonardo Venturieri, formando processos e pistas que nos avisam sobre nossos sonhos e vontades. Somos imersos em uma relação humano-tecnologia, como deflagra o gesto fotográfico de Ícaro Matos, aspirante a novos horizontes dentro de nossa própria paisagem, defendendo-a como um verdadeiro casamento.

É emocionante ver as fábulas que ali são fabuladas, quando a cineasta Acaique reconstrói contos de fadas e a artista Silvana Mendes interpreta o passado para estabelecer novos presentes, determinando o esplendor sobre presenças humanas antes invisíveis.

Vemos sinais e famílias sugeridas por tempos diversos e camadas de contemplação que se mostram avessas aos discursos da pressa. A poetisa Rafa Cardozo defende esta beleza, abrindo um recorte de representações para os nativos da região do gesto artesanal e da generosidade. Assim como o olhar íntimo e pessoal da artista Bárbara Savannah inspira o respeito pela cumplicidade com a intimidade alheia, sugerindo caminhos para vínculo de suma importância. Nesse mesmo caminho, o pintor Inke constrói sua narrativa desconstruindo muros e propondo janelas para visuais além do olhar imediato, num tempo transferido de seus antepassados e vivido por seus relacionamentos atuais.

Percebemos aqui que a ferrovia está por todos os lugares. Criando portos, vales, pontes, espaços e furos. A (des)construção de uma ópera, na qual a comunidade renova a assembleia de valores com a figura magistral de Juruna, que toca o coração daqueles que se unem a seu baile de máscaras e entidades.

Entre estações e caminhos construídos pelas artistas deste projeto, fica deflagrado que a verdade está para além da ficção e para o interior da fabulação.

A individualidade é uma ilusão, e nossa rede emaranhada de memória e coletividade pode mostrar isso com a clareza de nossas subjetividades respeitadas em nossos sujeitos.

Seguimos, todos, com a certeza de que percorremos travessias embarcados no mesmo trem.