E se a gente pudesse aumentar o enquadramento?
Por Koba
Há uma imagem na palma da mão. Criamos imagens, diariamente, para que alguém as tenha na palma da mão. Produzimos imagens que são conteúdo de afeto, discussões, trabalho, crenças, vontades e vaidades. Metafórica e praticamente, há uma imagem na palma da mão de cada um. Chegamos aqui, inclusive, pela imagem pescada num mar de criações, que sugere atenção em frases de efeito e recortes enquadrados. Instiga.
E se a gente pudesse aumentar o enquadramento? E se fosse possível ver para além das molduras da imagem construída? Quais realidades tomaríamos conhecimento? Haveria, ainda, realidade fora do enquadramento milimetricamente pensado? Há tempo, hoje, de milimetricamente pensar o enquadramento?
Penso que seja difícil responder qualquer dessas perguntas sem tomar as redes como objeto de análise. E pensando nisso, encontrei uma pesquisa realizada pela Statista (2025), que aponta para o Brasil como o quinto maior mercado de mídias sociais do mundo, o segundo das Américas e o maior do subcontinente latino-americano, com amplo engajamento e múltiplos papéis aplicados às redes sociais.
Um número considerável pensando que somos, enquanto população, aproximadamente duzentos e doze milhões (IBGE 2024), dos quais, 82,52% estão inseridos no contexto das redes sociais. E mais ainda, num rápido recorte de gênero, em 2024, 82% dos usuários masculinos de internet do Brasil faziam uso regular das mídias sociais, um número 2% maior do que o número de usuárias.
O que nos coloca, obviamente, seguindo a lógica do capital, como um mercado potencial para a expansão das redes, alcance, propaganda e comércio. E na mesma lógica, fomenta um desespero inconsciente de se fazer presente em todos os meios, de pertencer às discussões, criar conteúdo e postar. Postar o tempo todo, sobre todas as coisas, pois todas as coisas são importantes ao ponto de ser imediatamente reportadas, ainda que “de forma controlada” nos grupos de Whatsapp, ou de forma mais propensa à exposição via Facebook, Instagram e Tiktok. Postamos o tempo todo. Apressadamente.
Há uma urgência no vazio. Em algoritmizar conexões. Criar uma plateia de espectadores anestesiados, reduzidos ao consumo automático. Preencher histórias verticais. Somar seguidores desconhecidos e brevemente interessados. Em que o enquadramento se torna espaço limitante daquilo que deve ser: preciso postar, preciso ter número, preciso de alcance, preciso cuidar das palavras, dos detalhes. Tudo tem que estar, muito rápido, organizadamente orgânico. É preciso vender a verdade enquadrada como a única verdade.
Mas, e se a gente pudesse aumentar o enquadramento? Bom, expandindo os limites daquilo que foi criado, possivelmente descobriríamos que a criação é teatral, e que o mostrado só existe enquanto mostrado porque estar na rede o mais rápido possível é mostrar, rapidamente, que existe. Atropelamos sentidos, tropeçamos histórias, enquadramos o momento: numa foto bem cortada, numa moldura em preto e branco, ou na estética limpa de uma parede gasta. Nunca totalidade.
Premiamos imagens de guerra. Publicamos manifestos visuais. Recortamos pedaços de vida e história. E deixamos o não enquadrado na permanência do invisível. E justamente aí repousa a contradição: a perfeição enquadrada só existe porque algo foi deixado de lado. E assim, expandir o enquadramento é, portanto, desnudar a farsa e revelar o que não deveria aparecer. Aumentar o enquadramento é interrogar o que a rede nos faz esconder, o que escolhemos não mostrar e o que o algoritmo não permite ver. É desobedecer aos limites.
O que não sabemos, nessa lógica, é se haveria, ainda, realidade fora do enquadramento milimetricamente pensado. Um levantamento realizado pelo Senado Federal (2019) apontou que, naquele ano, aproximadamente 80% dos brasileiros se informavam sobre política através do WhatsApp. E, entre esses, 45% afirmaram ter levado em consideração, na última eleição, informações sobre candidatos tiradas de redes sociais na hora do voto.
O que nos faz pensar na rede para além da vitrine: um meio de disciplina. Política, sobretudo. Onde a velocidade de postar — como num mantra “tenho que postar” — supera o hábito individual, mecanizando uma estrutura de controle. Alimentando um tempo nem linear, nem cíclico, mas corrente, sem fôlego, que arrasta corpos e mentes num fluxo que exige presença contínua. Cada gesto medido em métrica, cada silêncio punido com a perda do alcance.
Não se trata mais da exposição, mas da submissão: o sujeito convocado para existir na cadência do algoritmo, a performar alegria, dor, sucesso, fracasso, numa escala de consumo instantâneo. Onde as informações são mais chamativas do que precisas. Polêmicas se tornam desejos, trazem reconhecimento. É preciso existir, rápida e efetivamente, na cadência do algoritmo, ainda que no apressado larguemos a profundidade.
E aqui, o enquadramento deixa de ser estético, para ser disciplinar: molda os corpos, regula os afetos, condiciona a vida e constrange a liberdade. Tornando inexistente, de fato, tudo aquilo que excede os limites do enquadramento. Não há serventia para o essencial, quando a regra do jogo diz: é preciso postar o tempo todo. É preciso servir uma vida enquadrada, rapidamente, antes do esquecimento.
Ainda que o enquadramento molde corpos, afetos e desejos, reflita a realidade da urgência, ele, evidentemente, não pode conter tudo. Ainda há o que sobra. Mesmo longe da palma da mão, há o que escapa, que insiste em existir fora da moldura. E seja lá, talvez, onde esteja a verdadeira criação: no excesso que abriga resistência e recusa a disciplina — não é preciso postar, respire!
Ampliar o enquadramento poderá ser um gesto político quando recusarmos a lógica simplista da divulgação imediata, descartarmos o perfeito da imagem e nos interessarmos pelo que sobra à moldura: a vida.
Salto, 24 de agosto de 2025. Koba
A Individualidade é uma Ilusão
por João Pacca MAPA — Mostra de Imagem em Movimento é um programa curatorial que, por meio de videoinstalações em locais públicos e com o objetivo de fornecer às ruas uma mostra de arte contemporânea, pensa território, memória, coletividade e continuidade. Atualmente, a realização do programa responde ao recurso público para preservação da memória ferroviária […]
Pedrinhas Miudinhas
Por Déia Matos Uma é maior, outra é menor. A miudinha é que me alumeia. A mais pequena é que alumeia. Pedrinha miudinha de Aruanda ê. — Cantiga tradicional de matriz afro-brasileira Nosso Brasil é imenso. Suas enormes e múltiplas dimensões nos enchem a boca ao oferecer predicados de grandeza a quase tudo que dele […]
O olhar por trás do MAPA
Por trás da câmera, João Pacca nunca esteve apenas registrando imagens. Ele sempre procurou vestígios de histórias, silêncios que dizem, luzes que narram. Fotógrafo de olhar atento e escuta refinada, Pacca construiu uma trajetória marcada por sensibilidade, rigor estético e um profundo respeito pelas camadas invisíveis do tempo. É com esse mesmo olhar que ele […]