25.03.2026

Pedrinhas Miudinhas

Por Déia Matos

Uma é maior, outra é menor. A miudinha é que me alumeia. A mais pequena é que alumeia. Pedrinha miudinha de Aruanda ê. — Cantiga tradicional de matriz afro-brasileira

Nosso Brasil é imenso. Suas enormes e múltiplas dimensões nos enchem a boca ao oferecer predicados de grandeza a quase tudo que dele se origina. Em suas planícies, planaltos, depressões e montanhas, a amplitude dos horizontes chega a pesar sobre a diminuta escala humana. Contudo, quando se anda na velocidade do caminhar, somos presenteades com a chance de ofertar nosso olhar à beleza daquelas pedrinhas pequeninas que, em sua singeleza e singularidade, contêm em si todo um mundo. Ou, melhor dizendo: muitos mundos.

Mais do que extrair dados, uma pesquisa que pensa o conhecimento a partir de (po)éticas do cuidado funda-se na escuta profunda das paisagens que percorre, fazendo do encontro a potência de pensar sempre em diálogo com ele. Caminhar, aqui, não é apenas deslocamento: é método. É o corpo como ferramenta nessa toada, fazendo do passo possibilidade de encontrar saberes únicos que surgem em cada território que atravessamos e pelo qual somos atravessades. Das muitas preciosidades que a terra oferece, não se pode deixar de notar que também ali brota uma imensa ecologia de modos de ser, sentir e fazer. Práticas de vida que se envolvem com ela.

É atravessando as bordas e pensando pelo meio que nos atemos aos vínculos daqueles que não se esqueceram de que se compõem com o chão que pisam e a partir dele. Das águas que bebem. E do ar que respiram. Que deles fazem e são feitos, que deles criam e são criados, que deles são e tornam-se parte. E assim enxergamos paisagens a partir de cosmovisões em que emaranhados humanos e mais-que-humanos tecem alianças afetivas complexas. Porque ser, aqui, só se conjuga em coletividade.

Ao escovarmos a história a contrapelo de sua grandiosidade, passamos a ver não apenas o passado como um arquivo morto e o futuro como um porvir determinado por uma perspectiva única, que se impõe como linha do tempo. Mas insurgem também memórias vivas que espiralam, abrindo-se em possibilidades de passados e futuros que, a cada rodada de saia, a cada umbigada, se reatualizam e se recriam no presente. Com esse gesto dançante, o corpo recorda que tecnologia é muita coisa. Para além de grandes números, o encantamento e o pertencimento são tecnologias que falam sobretudo de continuidade.

Ampliando desse modo ainda mais os horizontes do que nos é dado ver, podemos esgarçar imaginários suprimidos, criar imagens que agenciam outras realidades e contar narrativas implicadas que não apenas vão ganhar o mundo, mas que também saberão voltar para onde vieram. E, por isso, precisamos mudar nossas lentes ao deslocar o foco do que entendemos como valor. Só assim conseguimos ver, na pequeneza da vida ordinária, a riqueza do comum: aquilo que produz e reproduz cotidianamente as comunidades.

Quando pensamos em proporções exuberantes nessa escala, são as pedrinhas miudinhas encontradas pelo caminho que nos presenteiam com sua beleza rara de guardiãs de histórias que sustentam chãos e céus, e que não se encontram em nenhum outro lugar, só ali. Mas que sabem, sobretudo, não ser sós, confluindo em pluriversos. E por isso nos cabe encher a boca para falar de Brasis, no plural. Porque é aí que ele se torna ainda mais imenso.

Assim, diante de tal desmesura, pedimos nossa licença e pisamos devagarinho nesse chão: olhando, escutando, sentindo, sabendo, compondo e criando. Com ele e a partir dele, esse devir de memórias que se acende nos caminhos percorridos. Tal como a pedrinha miudinha que alumeia.