Viajar é Preciso
Por João Pacca
A liberdade que nos é conferida quando cresce o olhar tem a ver com o que percebemos ao assistir outros ritmos. Sendo público da imensidão cinematográfica do nosso mundo, encontramos os limites do nosso mapeamento, e os mapas estão aqui para nos fazer imaginar.
Existe uma linha de história no mapa do Maranhão que se une ao sudeste do Pará. Como parte visível de um grande círculo, essa linha é um lugar-caminho onde o início e o fim dependem de você: a Estrada de Ferro Carajás. Impressionante por sua grandeza, é ao mesmo tempo ferrovia e relíquia cultural há 40 anos.
No recorte de suas janelas e velocidade, a paisagem torna-se cinema e nos convida a uma contemplação cinematográfica. Como diria o artista Ramusyo Brasil, diante da sinestesia do trem “surge um novo tipo de olhar” e novos panoramas culturais deflagram monumentos humanos em um “horizonte em movimento”, como os nortes da artista Bárbara Savannah.
O encontro com o outro, na ferrovia, se torna inédito. Viajar pelas diversas estações é encontrar alteridades que curam. Nos olhares das comunidades que enxergam o trem, existe um franco senso de desafio à pressa e à alienação do próprio sentir. Gente é para brilhar, e que o trem seja iluminado pela gente por lá está.
Cada entrada, uma perspectiva, como a poesia de Rafa Cardozo em que tudo é uma correnteza. Nossos pais e ancestrais permeiam os caminhos hoje trilhados pelos vagões e suas preciosidades: as famílias.
Sons tornam-se contos que ecoam por cantos, de todos os cantos. Em telas digitais, como as de Leonardo Venturieri, uma sinfonia de gestos e camadas forma uma ópera de memórias.
Do rítmico movimento social, nos olhares de travessia do fotógrafo Ícaro Matos, às marcas ancestrais no grafite de Inke, uma gama preciosa de demandas e sonhos se encontra pelo trem como um retrato geracional.
Como diz Juruna, artista nômade de todos os nortes: “todo trajeto também é um rio”.
Em um momento de automaticidade e robotização, projetamos singularidades como verdadeiras pérolas. Assegurar a autonomia dos sujeitos, garantir às infraestruturas um espelho humano, é uma missão da maior relevância. A arte contemporânea, em sua natureza maximalista, abraça os contrastes sob o sol do meio-dia, que, como o trabalho de Silvana Mendes, permite compartilhar autorias dos gestos criativos e potências poéticas.
Oferecemos à Estrada de Ferro Carajás uma coleção de obras de arte provindas de artistas contemporâneos a ela para saudar o encontro que existe na memória desta ferrovia.
Somos todos passageiros de um mesmo caminho; juntos, tal qual gotas de chuva, inventando sentidos percebidos em presenças e ausências que pontuam nossa paisagem. Seguimos!
Apenas juntos, podemos criar monumentos.
A história da Terra é sobre nosso convívio e a história dos trilhos também. Sob faunas afora, como vislumbra o antropólogo Dinho Araújo, percebemos a vida em seu aspecto monumental, estabelecido em diversos pontos de vista e inúmeras escalas.
As casinhas ao longo dos trilhos são nossos monumentos. Tão preciosas quanto as maiores arquiteturas, elas guardam em suas histórias o cinema de uma nação. Assim como confabula a cineasta Acaique, a ferrovia está para as casinhas como um instrumento de ida e volta.
O gesto de busca sobre o desconhecido experimenta o mundo.
O gesto de retorno à sua casinha reconhece o mundo.
Quantos mundos podem ser acessados pelos portais da Estrada de Ferro Carajás?
Esse é nosso movimento.
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